Em mais de 40 anos atendendo pacientes em Mossoró, vi centenas de pessoas que normalizaram a dor de cabeça - até o dia em que descobriram que não era normal, e que existia tratamento.
Vou começar com uma verdade que muitos médicos não dizem: sentir dor de cabeça frequentemente NÃO é normal.
"Mas doutor, todo mundo tem dor de cabeça de vez em quando", você deve estar pensando.
Sim, é verdade. Uma dor de cabeça ocasional, após uma noite mal dormida ou um dia muito estressante, pode acontecer com qualquer pessoa. Mas existe uma diferença enorme entre uma dor ocasional e o que você está vivendo.
Ao longo de quatro décadas como neurologista em Mossoró, estabeleci critérios claros para identificar quando uma dor de cabeça precisa de atenção médica especializada:
Você precisa de ajuda se:
• Tem dor de cabeça mais de 4 dias por mês
• Precisa tomar remédio toda semana (ou mais)
• A dor te faz faltar trabalho ou compromissos
• Você evita fazer planos com medo da dor aparecer
• A intensidade ou o padrão da dor mudou recentemente
• Remédios comuns (como dipirona ou paracetamol) não funcionam mais
• A dor vem acompanhada de náuseas, vômitos ou sensibilidade à luz
• Você acorda com dor de cabeça frequentemente
Se você se identificou com dois ou mais desses sinais, sua dor de cabeça não é "normal" - e você precisa de uma avaliação neurológica completa.
Durante minha carreira, atendi mais de 10 mil pacientes com queixas de dor de cabeça. E uma coisa que aprendi é que cada tipo de dor conta uma história diferente sobre o que está acontecendo no seu cérebro.
Vamos entender os principais tipos:
A enxaqueca não é "apenas uma dor de cabeça forte". É uma condição neurológica complexa que afeta 15% da população brasileira - e muitas dessas pessoas nem sabem que têm enxaqueca.
Como identificar:
• Dor latejante (pulsante), geralmente de um lado da cabeça
• Intensidade moderada a severa
• Piora com atividade física
• Náuseas ou vômitos
• Sensibilidade à luz (fotofobia) e sons (fonofobia)
• Dura de 4 a 72 horas se não tratada
• Alguns pacientes têm "aura" antes da dor (pontos luminosos, formigamento)
O que acontece no seu cérebro: Durante uma crise de enxaqueca, há uma ativação anormal de nervos e vasos sanguíneos no cérebro. Neurotransmissores como a serotonina ficam desregulados, causando inflamação e dor intensa.
Por que isso importa: A enxaqueca não tratada adequadamente pode se tornar crônica. Vi pacientes que evoluíram de 4 crises por mês para dor diária - simplesmente por não terem procurado tratamento especializado a tempo.
Este é o tipo mais frequente de dor de cabeça. Cerca de 70% da população já experimentou uma cefaleia tensional em algum momento da vida.
Como identificar:
• Dor em aperto, como se tivesse uma faixa apertada na cabeça
• Afeta os dois lados da cabeça
• Intensidade leve a moderada
• Não piora com atividade física
• Geralmente não vem com náuseas
• Pode durar de 30 minutos a 7 dias
O que acontece: A tensão muscular no pescoço, ombros e couro cabeludo, combinada com estresse e má postura, leva a essa dor característica.
Cuidado: Muitos pacientes normalizam essa dor porque ela é "suportável". Mas quando você tem cefaleia tensional várias vezes por semana, ela rouba sua qualidade de vida aos poucos. E você merece mais do que apenas "suportar".
Embora seja menos comum, preciso falar sobre ela porque é uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar.
Como identificar:
• Dor extremamente intensa, unilateral (sempre do mesmo lado)
• Localizada ao redor do olho ou têmpora
• Dura de 15 minutos a 3 horas
• Pode ocorrer várias vezes ao dia, por semanas ou meses
• Vem acompanhada de olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido do lado da dor
• Sensação de inquietação (o paciente não consegue ficar parado)
O que acontece: Há uma ativação do hipotálamo (área do cérebro que regula ritmos biológicos) e dos nervos trigêmeos, causando crises de dor extrema em períodos específicos.
Importante: Pacientes com cefaleia em salvas frequentemente recebem diagnósticos errados por anos. Se você tem essas características, precisa de avaliação neurológica urgente.
Este é um dos casos mais frustrantes que atendo: pessoas que começaram tomando um remédio ocasional para dor de cabeça e, aos poucos, ficaram dependentes dele - e agora têm dor de cabeça todos os dias.
Como identificar:
• Dor de cabeça diária ou quase diária
• Uso de analgésicos 10-15 dias ou mais por mês
• A dor melhora temporariamente com o remédio, mas volta logo depois
• Você sente que precisa do remédio preventivamente
• A dor começou a mudar de característica
O ciclo perigoso: Toma remédio → Dor melhora → Dor volta mais forte → Toma mais remédio → Dor volta ainda mais forte → E assim por diante.
A solução: Paradoxalmente, a solução envolve PARAR os medicamentos (com supervisão médica) e tratar a causa original da dor. Sei que parece assustador, mas em minha experiência, é libertador.
Estas são dores de cabeça causadas por outra condição médica. Representam menos de 10% dos casos, mas são as que mais preocupam.
Sinais de alerta (procure emergência IMEDIATAMENTE):
• Dor de cabeça súbita e muito intensa ("a pior dor da minha vida")
• Dor que piora progressivamente ao longo de dias
• Dor com febre e rigidez no pescoço
• Dor com confusão mental ou alteração de consciência
• Dor após trauma na cabeça
• Dor com convulsões
• Dor nova em pessoa acima de 50 anos
• Dor com sinais neurológicos (fraqueza, formigamento, dificuldade para falar)
Possíveis causas: Hipertensão arterial não controlada, sinusite, problemas na articulação da mandíbula (ATM), glaucoma, e em casos raros, tumores ou aneurismas.
Uma das perguntas que mais ouço no consultório é: "Doutor, por que isso acontece comigo?"
A resposta não é simples, porque a dor de cabeça geralmente tem múltiplas causas. Mas ao longo de 40 anos, identifiquei os gatilhos mais comuns:
Gatilhos Alimentares
Os vilões comprovados:
• Jejum prolongado (pular refeições)
• Desidratação
• Álcool (especialmente vinho tinto)
• Cafeína em excesso - ou abstinência de cafeína
• Chocolate (em algumas pessoas)
• Queijos envelhecidos
• Adoçantes artificiais (aspartame)
• Glutamato monossódico (presente em comidas industrializadas)
Dica prática: Mantenha um diário alimentar por 30 dias. Anote tudo que come e quando tem dor. Padrões vão aparecer.
Os sabotadores silenciosos:
• Sono irregular (dormir pouco OU demais)
• Estresse crônico não gerenciado
• Sedentarismo
• Má postura (especialmente quem trabalha muito tempo no computador)
• Uso excessivo de telas
• Pular exercícios físicos regulares
Cerca de 60% das mulheres com enxaqueca têm crises relacionadas ao ciclo menstrual. Isso acontece porque as flutuações de estrogênio afetam diretamente os neurotransmissores relacionados à dor.
Quando ocorre:
• Menstruação
• Ovulação
• Gravidez (algumas melhoram, outras pioram)
• Menopausa
• Uso de anticoncepcionais hormonais
Os desencadeadores externos:
• Mudanças climáticas (especialmente queda de pressão atmosférica)
• Luzes muito fortes ou piscantes
• Cheiros fortes (perfumes, produtos de limpeza, gasolina)
• Ruídos excessivos
• Ambientes muito quentes ou frios
Veja o que acontece quando você não trata adequadamente:
Fase 1 - Negação: "É só estresse. Vai passar." Você ignora os sinais.
Fase 2 - Automedicação: "Vou tomar um analgésico." Você alivia temporariamente o sintoma sem tratar a causa.
Fase 3 - Dependência: "Não consigo ficar sem remédio." Você desenvolve cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
Fase 4 - Cronicidade: "Não lembro mais como é viver sem dor." A dor se torna diária, resistente a tratamentos simples.
Fase 5 - Desespero: "Nada funciona mais." Você finalmente procura ajuda, mas agora o tratamento é mais complexo.
Por Que Isso Acontece
Seu cérebro tem um sistema de controle de dor. Quando você tem dores frequentes e não trata a causa, esse sistema fica "sensibilizado" - como um alarme que dispara cada vez mais fácil.
Com o tempo, seu limiar de dor diminui. Estímulos que antes não causavam dor passam a causar. E você entra em um ciclo de dor crônica.
A boa notícia? Com o tratamento adequado, podemos reverter essa sensibilização. Mas quanto mais tempo você espera, mais difícil fica.
Mas doutor, meu médico já me passou remédio para dor de cabeça."
Eu ouço isso com frequência. E não estou dizendo que seu médico está errado. Mas tratar dor de cabeça adequadamente requer uma abordagem neurológica especializada.
Deixe-me explicar como funciona minha avaliação:
Etapa 1: Investigação Detalhada (Anamnese Neurológica)
Não é simplesmente "onde dói?" É uma conversa de 45-60 minutos onde eu preciso entender:
• Características exatas da sua dor (localização, tipo, intensidade)
• Quando começou e como evoluiu
• Frequência e duração das crises
• Sintomas associados
• Fatores que melhoram ou pioram
• Histórico familiar (dor de cabeça tem forte componente genético)
• Medicamentos que você já tentou
• Impacto na sua vida (trabalho, família, lazer)
• Hábitos de vida completos
• Condições médicas associadas
Por que isso importa: Dois pacientes podem ter "dor de cabeça forte", mas tratamentos completamente diferentes. O diabo está nos detalhes.
Etapa 2: Exame Neurológico Completo
Avalio:
• Nervos cranianos
• Força e coordenação
• Reflexos
• Sensibilidade
• Marcha e equilíbrio
• Sinais de irritação meníngea
• Pontos dolorosos na cabeça e pescoço
Por que isso importa: O exame físico pode revelar sinais sutis que explicam sua dor ou indicam necessidade de investigação adicional.
Etapa 3: Exames Complementares (Quando Necessário)
Nem todo paciente precisa de exames. Mas quando necessário, solicito:
Exames de imagem:
• Tomografia computadorizada
• Ressonância magnética
• Angiografia por ressonância
Exames laboratoriais:
• Hemograma completo
• Função tireoidiana
• Dosagens hormonais
• Marcadores inflamatórios
Por que isso importa: Exames ajudam a confirmar diagnósticos, excluir causas secundárias e personalizar o tratamento.
Etapa 4: Plano Terapêutico Personalizado
Aqui está o diferencial: não existe tratamento padrão. Cada paciente recebe um plano individualizado que pode incluir:
Tratamento Agudo (para as crises):
• Analgésicos específicos
• Anti-inflamatórios
• Triptanos (para enxaqueca)
• Antieméticos (para náuseas)
• Técnicas de alívio imediato
Tratamento Preventivo (para reduzir frequência):
• Medicamentos preventivos diários
• Suplementos (magnésio, riboflavina, coenzima Q10)
• Toxina botulínica (Botox) para enxaqueca crônica
• Bloqueios anestésicos
• Dispositivos neuromodulatórios
Modificações de Estilo de Vida:
• Higiene do sono
• Gerenciamento de estresse
• Exercícios regulares
• Dieta anti-inflamatória
• Fisioterapia ou acupuntura quando indicado
Acompanhamento Regular:
• Reavaliações periódicas
• Ajustes de medicação
• Monitoramento de efeitos colaterais
• Suporte contínuo
Mito 1: "Dor de cabeça é psicológica"
FALSO. Embora o estresse possa desencadear dor de cabeça, as dores primárias (enxaqueca, cefaleia tensional) têm base neurobiológica comprovada. Exames de neuroimagem mostram alterações reais no cérebro durante crises de enxaqueca.
Mito 2: "Tomar remédio sempre que dói não tem problema"
FALSO. Como vimos, o uso excessivo de analgésicos pode causar cefaleia rebote e cronificar sua dor. Existe um limite seguro que varia conforme o tipo de medicamento.
Mito 3: "Enxaqueca é coisa de mulher"
FALSO. Embora seja mais comum em mulheres (3:1), homens também têm enxaqueca. E cefaleia em salvas, aliás, afeta mais homens que mulheres.
Mito 4: "Se o exame não mostrou nada, a dor é imaginária"
FALSO. A maioria das dores de cabeça primárias NÃO aparece em exames de imagem. O diagnóstico é clínico, baseado nas características da dor e no exame neurológico.
Mito 5: "Vou ter que tomar remédio para sempre"
FALSO. O tratamento preventivo geralmente é temporário. Após controlar as crises (geralmente 6-12 meses), muitos pacientes conseguem reduzir ou até suspender a medicação, mantendo as mudanças de estilo de vida.
Você não precisa esperar a dor ficar insuportável. Procure avaliação neurológica se:
✓ Tem dor de cabeça 4 ou mais dias por mês
✓ Usa analgésicos mais de 2 vezes por semana
✓ A dor interfere no trabalho, estudos ou vida pessoal
✓ Já passou por vários médicos sem melhora
✓ Tem medo de fazer planos por causa da dor
✓ Sua qualidade de vida está comprometida
✓ A dor mudou de característica recentemente
✓ Tem histórico familiar de enxaqueca
Depende do tipo e da cronicidade da dor. Tratamentos agudos funcionam em horas. Tratamentos preventivos precisam de 4-8 semanas para mostrar efeito completo. Pacientes com cefaleia crônica podem precisar de 3-6 meses de tratamento intensivo.
Medicamentos preventivos prescritos por neurologista, quando usados corretamente, não causam dependência. O objetivo é usá-los temporariamente até controlar as crises.
Alguns medicamentos são seguros na gravidez, outros não. Sempre planeje a gestação com acompanhamento médico. Muitas mulheres melhoram da enxaqueca durante a gravidez.
Na maioria dos casos (mais de 90%), não. Mas sinais de alerta exigem avaliação imediata: dor súbita e intensa, dor com febre e rigidez no pescoço, dor com alteração de consciência, dor após trauma.
Sim! A enxaqueca pode começar na infância. Crianças com dores de cabeça frequentes merecem avaliação neurológica.
Quero que você entenda algo fundamental: você não precisa viver assim.
Em quatro décadas atendendo pacientes em Mossoró, vi milhares de pessoas recuperarem suas vidas. Vi mães que voltaram a brincar com os filhos. Profissionais que recuperaram a produtividade. Pessoas que voltaram a fazer planos sem medo.
A diferença entre continuar sofrendo e viver sem dor está em uma decisão: procurar ajuda especializada.
Sua dor de cabeça tem explicação. Tem diagnóstico. E, principalmente, tem tratamento.
Não deixe mais dias, semanas ou meses passarem. Cada crise que você tem poderia ser evitada. Cada momento perdido poderia ser aproveitado.
A vida sem dor que você merece está a uma consulta de distância.
Dr. Fabiano de Oliveira | Neurocirurgião e Neurologista
CRM-RN 1582 - 40 anos de experiência em Mossoró-RN