E aí vem a dúvida que pesa: “Será que é só uma fase?”
Em muitos casos, pode ser uma fase mesmo. Em outros, pode ser um sinal de que seu filho precisa de uma avaliação cuidadosa. O objetivo aqui não é colocar rótulos, nem assustar. É ajudar você a entender sinais, organizar observações e saber qual é o próximo passo com segurança.
Importante: o diagnóstico do TEA não é feito por “teste de internet” nem por um único comportamento isolado. É um processo com escuta, observação e, muitas vezes, uma avaliação multiprofissional.
TEA significa Transtorno do Espectro Autista. “Espectro” quer dizer que não existe um único tipo de autismo: cada criança pode ter necessidades diferentes.
Algumas têm mais dificuldade na comunicação e na interação. Outras falam bastante, mas sofrem para lidar com mudanças e barulhos. Algumas precisam de mais apoio no dia a dia; outras são muito independentes, mas enfrentam desafios sociais.
No Brasil, o Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, o que equivale a 1,2% da população (IBGE, Agência de Notícias — Censo 2022).
Não é uma lista para “fechar diagnóstico”. É um roteiro de observação.
De 0 a 12 meses
Pouco contato visual (não olha para rostos com frequência)
Pouca resposta ao nome (mesmo com audição normal)
Pouca troca de “turnos” na interação (você sorri, a criança raramente responde)
Pouco interesse em brincadeiras simples de interação (ex.: “cadê-achou”)
De 12 a 24 meses
Não aponta para mostrar algo (“olha isso!”)
Não leva o adulto até um objeto para pedir ajuda
Poucas tentativas de imitar (palmas, sons, gestos)
Brincadeiras repetitivas (alinhar objetos, girar rodas) com pouco “faz de conta”
Irritação intensa com mudanças pequenas (trocar caminho, trocar roupa)
De 2 a 4 anos
Dificuldade de brincar “junto” (prefere brincar sozinho sempre)
Atraso na fala ou fala que não vira conversa (repete frases, mas não troca ideia)
Dificuldade com frustrações e crises mais intensas
Hipersensibilidade a sons, luz, toque, texturas (ou o oposto: parece não sentir dor do jeito esperado)
Um ponto importante: atraso de fala não é sinônimo de autismo, e autismo também pode existir sem atraso de fala. Por isso a avaliação é tão individual.
Não necessariamente. Muitas crianças com TEA são carinhosas, procuram colo e se apegam à família. A diferença costuma estar na forma de interação e na comunicação social em vários contextos (casa, escola, com outras pessoas).
Se você quer fazer uma observação mais organizada, foque em 3 áreas:
Ele pede ajuda? Aponta? Usa gestos? Tenta mostrar coisas?
Ele busca compartilhar alegria? Traz brinquedo para você ver? Responde quando você chama?
Repetições muito frequentes? Fixações? Crises com barulho, roupa, corte de unha?
👉 Dica prática: anote por 7 dias, com exemplos. Não precisa filmar tudo. Só registre:
o que aconteceu
em que situação
como a criança reagiu
como você tentou ajudar e o que funcionou
Isso ajuda muito na consulta.
A consulta costuma envolver:
História do desenvolvimento (gestação, parto, marcos: sentar, andar, falar)
Rotina da criança (sono, alimentação, escola)
Observação do comportamento e da interação
Avaliação de sinais neurológicos gerais
Em muitos casos, o neurologista recomenda avaliação multiprofissional, porque o cuidado costuma ser em equipe (Ministério da Saúde — diretrizes e linha de cuidado para TEA). O SUS também descreve a importância de assistência e cuidado contínuo para pacientes e familiares (Ministério da Saúde, notícia sobre TEA e assistência).
Segundo o Ministério da Saúde, em 2021 foram realizados 9,6 milhões de atendimentos ambulatoriais a pessoas com autismo no Brasil, sendo 4,1 milhões para crianças até 9 anos (Ministério da Saúde — notícia de abril/2022).
Muda o foco: sai o “será que é…” e entra o plano de apoio.
Em termos simples, as intervenções costumam buscar:
melhorar comunicação (verbal ou não verbal)
reduzir sofrimento sensorial
orientar família e escola
desenvolver autonomia possível para cada criança
Sem prometer “resultado X”, porque cada criança tem um ritmo. O mais importante é: não adiar por medo. Avaliar cedo evita que a família passe anos “apagando incêndio” sem direção.
Procure avaliação se você perceber:
perda de habilidades (a criança falava/olhava/interagia e “voltou atrás”)
crises muito frequentes e intensas
atraso importante de linguagem
sofrimento grande na escola e em casa
Autismo tem cura?
O TEA não é uma “doença para curar”. É uma condição do neurodesenvolvimento. O foco costuma ser apoio, desenvolvimento e qualidade de vida, com intervenções e acompanhamento.
Todo atraso na fala é autismo?
Não. Atraso na fala pode ter várias causas. A avaliação ajuda a entender o motivo e o melhor caminho.
Meu filho olha no olho às vezes. Então não é TEA?
O contato visual pode existir. O que importa é o conjunto: comunicação, interação e padrões repetitivos/sensoriais.
A consulta já dá diagnóstico no mesmo dia?
Às vezes é possível fechar uma hipótese forte; outras vezes, precisa de acompanhamento e avaliação multiprofissional. O objetivo é ser cuidadoso e não precipitar.
O que eu devo levar para a consulta?
Histórico de desenvolvimento, relatos da escola (se houver), anotações do que você observa, e lista de dúvidas.
Quando é recomendado procurar um neurologista infantil?
Quando há sinais persistentes (não só um dia ruim), atraso no desenvolvimento, crises frequentes ou dúvidas que estão tirando sua tranquilidade.
Se você está com dúvidas sobre desenvolvimento, uma avaliação bem feita costuma trazer clareza e direção. A recomendação é agendar uma consulta para ouvir sua história com calma e orientar os próximos passos com segurança.
Fontes: (IBGE — Censo 2022, Agência de Notícias)
(Ministério da Saúde — TEA e assistência no SUS (Diretrizes/linha de cuidado).
O Dr. Fabiano de Oliveira, neurocirurgião e neurologista. Há mais de 40 anos entregando qualidade de vida para famílias. Mossoró – RN.